Tradução do texto de John Law - "Traduction/Trahison: Notes On ANT"John Law, Traduction/Trahison: Notes On ANT, in
http://www.lancs.ac.uk/fass/sociology/papers/law-traduction-trahison.pdf , Lancaster, Department of Sociology, 1997
Neste texto, Law pretende responder a uma aparente contradição da teoria do actor-rede. Assumindo a sua teoria como uma tradução, como resolver o problema da fidelidade que atravessa o discurso científico acerca do social. A resposta passa por acentuar o carácter de tradução que atravessa a teoria social, colocando em causa o seu carácter de "representação" verdadeira.Para isso, debruça-se sobre três exemplos de estudos de caso que nos mostram, na prática, o rigor da teoria do actor-rede numa lógica quer de dispersão, quer de diáspora.
Primeiro estudo de caso
No primeiro caso, trata-se de um estudo sobre "transferência de tecnologia", realizada por uma ONG, entre a Suécia e a Nicarágua. A conclusão, um pouco paradoxal, sugere que "não existe essa coisa designada por 'transferência de tecnologia'. Que as tecnologias não surgem de um ponto e se espalham. Mas pelo contrário elas são passadas. Passam de mão em mão. E que quando passam, são transformadas. Tornam-se cada vez menos reconhecíveis" (Law, 1997: 2).
O processo consiste na transferência de uma máquina que permite aproveitar os resíduos da floresta para criar "briquettes". Uma investigadora descreve as negociações, as experiências.
A primeira negociação: que materiais de base [raw materials] utilizar? Depois de várias tentativas chega-se a uma conclusão: os restos das plantas do algodão [the stalks].
Na segunda ronda de negociações surgem dois novos actores: os proprietários das quintas e a peste do algodão. Os restos tinham de ser destruídos pelos proprietários por causa do perigo da peste. Mas, neste caso, era necessário recolher os restos. Ora, isso implicava trabalho e, talvez, uma nova máquina.
Terceira negociação: verifica-se que não existe mão-de-obra suficiente para recolher os restos. Como solução, importa-se uma máquina do Sudão que recolhe os restos do algodão.
Quarta: metade da planta está na raiz. Porque não aproveitar igualmente essas raízes para produzir "briquettes"? Uma nova máquina é construída a partir da versão sudanesa.
Quinta: a recolha só decorre 90 dias no ano, ao contrário do que sucede na Suécia em que nunca é interrompida. Será necessário armazenar os restos do algodão.
Sexta ronda de negociações. De repente, após dois anos de sucesso, os resíduos transformam-se em pó. O que teria acontecido? A razão é uma peste que ataca os restos. No entanto, uma dúvida se levanta: porque é que apenas no terceiro ano surge este problema. Resposta: as condições de armazenagem alteraram-se pois deixou de se compactar os restos o que permitiu a reprodução da peste - passou a existir ar entre os restos de algodão. A solução passou necessariamente por voltar a compactar.
Finalmente, a sétima negociação. Quem iria comprar os "briquettes"? Ao contrário da Suécia, não se encontravam indústrias que pudessem ser os consumidores deste produto. Contudo, encontrou-se um tipo de consumidor: os briquettes eram perfeitos PARA OS FORNOS DOMÉSTICOS. A partir daí, passaram a vender-se muito bem (Ibid.: 3).
J. Law, a partir deste caso, efectua alguns comentários.
Em primeiro lugar, este estudo integra-se perfeitamente na teoria do actor-rede. "Ela fala-nos de redes. De redes heterogéneas nas quais actores de todos os tipos, social, técnico e natural são feitos e jogam as suas vidas. Fala-nos de duas redes em particular, a sueca e a nicaraguense. Descreve estas duas redes e a forma como elas se ligam. Acentua o facto de as duas redes serem muito diferentes. A máquina de briquettes na Suécia relaciona-se com outras partes da rede sueca de uma forma determinada, mas isto não faz muito sentido em termos nicaraguenses. O que significa que, quando a máquina fosse "transferida", ela começaria a mudar. Ela começa a desempenhar diferentes papéis — mas também implica que os actores à volta se transformam: da madeira para o algodão; dos industriais para os "bakers" [padeiros]; de um fluxo contínuo para a necessidade de armazenar. Estas transformações implicaram mudanças na rede nicaraguense: nas fazendas; na maquinaria para lidar com os restos do algodão; nos hábitos dos consumidores. Portanto, trata-se de uma estória de redes em transformação, de novas sintaxes sócio-técnicas e, em particular, da inadequação de um modelo de difusão para a transferência de tecnologias. Porque a designada 'transferência" que aqui acontece é uma mudança. É uma translação. É uma criação de novas relações. Portanto, há mudança na Nicarágua, mas também há mudança naquilo que se transfere" (Ibid.: 3).
Esta descrição constitui um estudo exemplar no uso que faz da teoria do actor rede. Vejamos porquê.
Em primeiro lugar, trata-se de uma rede que assenta numa noção semiótica. Mas difere do estruturalismo porque não diz que a estrutura é algo assegurado à partida. Tanto as ligações como os nódulos terão de ser descobertos [uncovered] pois poderão ser diferentes daquilo que se espera.
Segundo: estamos perante redes heterogéneas compostas por elementos que são similares na sua relação com a rede: algodão ou agricultores, hábitos ou pestes, etc.
Terceiro lugar: todos estes actores quer os humanos, quer os não humanos são capazes de actuar.Quarto: as redes podem ser imaginadas semioticamente como "instruções": uma máquina precreve o papel que ela, máquina, espera que os outros elementos da rede desempenhem.Quinto: as redes e os nódulos necessitam de uma manutenção constante.Sexto: as redes são processos ou realizações [achievements] mais do que relações ou estruturas.Por fim, a translação/tradução é ao mesmo tempo similaridade e diferença. "Similaridade significa, aqui, que é possível dizer que a máquina "BRIQUETTE" na Nicarágua é "o mesmo" que a máquina "Briquette" na Suécia; mas também diferente porque quando passou a ser localizada no seu novo meio nicaraguense sofreu [has undergone] muitas mudanças" (Ibid.: 4).
Tradução de José Pinheiro Neves