sábado, 27 de novembro de 2010

A propósito da aula de 25 de Novembro e da comunicação tóxica em Bateson

Até certo ponto, a relação de comunicação tóxica do "duplo vínculo" (Bateson) tem por detrás uma atitude de não-dádiva. Contudo, essa violência é rara nas sociedades "pré-modernas". Ao entrar na manipulação, estou a separar-me da coerência de uma ligação "amorosa", da uma troca pura que, em parte, caracteriza essas sociedades.


Inspirado numa sugestão surgida num debate das aulas de Mestrado de Sociologia da Universidade do Minho (aluna Marina), vamos ler o que nos diz Marcel Mauss no seu ensaio sobre a dádiva. Nesse texto, Marcel Mauss inspira-se nas "sociedades não ocidentais" - uma forma civilizacional que ainda emerge na sociedade actual nos fragmentos não captados pela racionalização referida por Max Weber.

A atitude de hospedagem, de receber o outro, tem algo de "dádiva".

"Ao receber alguém estou me fazendo anfitrião, mas também crio, teórica e conceptualmente, a possibilidade de vir a ser hóspede deste que hoje é meu hóspede. A mesma troca que me faz anfitrião, faz-me também um hóspede potencial. Isto ocorre porque “dar e receber” implica não só uma troca material mas também uma troca espiritual, uma comunicação entre almas. É nesse sentido que a Antropologia de Mauss é uma sociologia do símbolo, dacomunicação; é ainda nesse sentido ontológico que toda troca pressupõe, em maior ou menor grau, certa alienabilidade. Ao dar, dou sempre algo de mim mesmo. Ao aceitar, o recebedor aceita algo do doador. Ele deixa, ainda que momentaneamente, de ser um outro; a dádiva aproxima-os, torna-os semelhantes. A etnografia da troca dá ainda um novo sentido às etiquetas sociais. Por mais que estas variem, elas sempre reiteram que, para dar algo adequadamente, devo colocar-me um pouco no lugar do outro (por exemplo, de meu hóspede), entender, em maior ou menor grau, como este, recebendo algo de mim, recebe a mim mesmo (como seu anfitrião)."
(Marcos Lanna, "Nota sobre Marcel Mauss e o ensaio sobre a dádiva". Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n14/a10n14.pdf [25 de Novembro de 2010])

A atitude agónica em relação ao outro tem contudo um aspecto complexo. Nem tudo é dádiva desinteressada.

"Mauss, escrevendo com Hubert o Ensaio sobre a natureza e função do sacrifício, já mostrara, em 1898, que “esta abnegação e essa submissão não deixam de ter um lado egoísta”. Para Mauss, a dádiva é um ato simultaneamente espontâneo e obrigatório. O estudo da dádiva permitiria à sociologia a superação relativa de dualidades profundas do pensamento ocidental, entre espontaneidade e obrigatoriedade, entre interesse e altruísmo, egoísmo e solidariedade, entre outra (3). Este ponto é importante porque a conclusão do Ensaio irá criticar a generalização da noção de interesse individual implícita na sociedade burguesa e no pensamento liberal, que irão opor radicalmente aquilo que a dádiva une" (Marcos Lanna, "Nota sobre Marcel Mauss e o ensaio sobre a dádiva".
Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n14/a10n14.pdf [25 de Novembro de 2010])


Será que esta dádiva ainda predomina nas relações marcadas pela economia das trocas monetárias e mediadas pela mercadoria? Ou será que teremos de defender alternativas éticas, com uma dimensão necessariamente política, que apontam para uma misturade elementos pré-modernos com pós-modernos. Uma nova forma de socialidade tribal? A resposta do Nobel da Economia de 1998,  o indiano Amartya Kumar Sen, aponta nesse sentido.

"Um dos representantes do pensamento liberal no Brasil, Delfim Netto (1999), notou recentemente que tal preocupação em propor alternativas à ética do mercado valeu o Prêmio Nobel de Economia de 1998 ao indiano Amartya Kumar Sen (4). Talvez até porque conhece “por dentro” uma “civilização da dádiva”, como a indiana, pôde Sen reconhecer que o desejo egoísta do lucro não só é incapaz de fundar qualquer sociedade, mas tende, justo ao contrário, a inviabilizá-las".(Marcos Lanna, "Nota sobre Marcel Mauss e o ensaio sobre a dádiva".
Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n14/a10n14.pdf [25 de Novembro de 2010])



O acto da dádiva (o agon de que fala Michel Foucault) deve ser contextualizado. Na verdade, a sociedade de troca monetária produz algo que não é natural, propicia até certo ponto o terreno fértil para o abuso, a manipulação, a comunicação tóxica, ambivalente. O bullying, mobbing, stalking, etc. Em certa medida, o neo-liberalismo não é um excesso, um defeito mas a culminação de um longo caminho (um descaminho) civilizacional.

Estamos perante um naufrágio de que não somos meros espectadores como pretende "a posicão apathos do sábio que o torna espectador - homem da "Theoria" - e, em consequência, em fonte de ordem frente ao "mar" das paixões que arrastam o homem no movimento de conjunto de sua história natural, como afirmava Walter Benjamin e que enquanto natural é sempre a narração da morte do humano, e talvez a instituição da narração como anteparo contra a morte" (José Bragança de Miranda, "Apresentação de Hans Blumenberg", in Hans Blumenberg, Naufrágio com espectador, Lisboa, Vega, 1990, p. 13)

Para reflectir...


Marcos Lanna, "Nota sobre Marcel Mauss e o ensaio sobre a dádiva".
Disponível em:
http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n14/a10n14.pdf [25 de Novembro de 2010]

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Aula de 25 de Novembro de 2010 - A teoria do "double bind" (duplo vínculo) de Bateson

Ler este texto de apoio à aula de 25 de Novembro de 2010


"Teorias da Comunicação - Double bind
Axiomas da pragmática da comunicação humana (Mental Research Institute, Palo Alto):
• Não se pode não comunicar

• Toda comunicação tem um aspecto de conteúdo e um aspecto de comunicação tais que o segundo classifica e o primeiro é portanto uma metacomunicação

Metacomunicação: comunicação que indica como a informação verbal deve ser interpretada; estímulos ao redor da comunicação verbal que também possuem significado

• A natureza de uma relação está na contingência da pontuação das sequências comunicacionais entre os comunicantes

• Os indivíduos comunicam-se digital e analogicamente. A linguagem digital é uma sintaxe lógica sumamente complexa e poderosa, mas carente de adequada semânitca no campo das relações, ao passo que a linguagem analógica possui a semântica mas não tem uma sintaxe adequada para a definição não ambígua da natureza das relações

• Todas as permutas comunicacionais são simétricas ou complementares, segundo se baseiam na igualdade ou na diferença
Linguagem analógica – linguagem não verbal

“Double bind”

Paradoxos pragmáticos – G. Bateson et al., 1956

Forte reação complementar

Instrução que tem que ser obedecida e desobedecida para que seja obedecida

Impossibilidade de auto-comunicar

Ex: pai fala “Não seja tão obediente”. O filho pode obedecer desobedecendo ou ser obediente contrariando o pai. É um paradoxo pragmático. Todos estamos sujeitos a double blind (governo versus cidadãos, etc).
É possível que esquizofrênicos apresentam maior dificuldade em metacomunicar e fiquem mais presos aos double blind.
A diferença entre a relação terapêutica e patológica é que a primeira possibilita que o indivíduo metacomunique.
Um double bind é um dilema em comunicação no qual um indivíduo (ou grupo) receve duas ou mais mensagens conflitantes, com uma a negar a outra. Isso cria uma situação na qual a resposta necessária a uma resposta resulta em falha a responder a outra, deixando o indivíduo a errar, seja qual for sua resposta. A natureza do double bin é que a pessoa não pode confrontar o dilema inerente e fica impossibilitada de comentar tanto de comentar, resolver ou sair do conflito.
Um double bind geralmente inclui diferentes níveis de abstração em ordem de messagens e estas podem ser passadas em voz alta ou pelo tom de voz ou linguagem corporal. Tipicamente a demanda é imposta sobre a vítima por alguém de respeito na relação (um dos pais, um professor, o médico) mas esta demanda é impossível de ser cumprida, já que um contexto maior a proíbe. Um exemplo: quando uma pessoa de autoridade impõe duas condições contraditórias mas existe uma regra não falada de que autoridade nunca deve ser questionada.

Bateson e Col definiram o double bind como:

Uma situação que envolve duas ou mais pessoas, uma das quais (para propósitos de definição) é designada "vítima". Os demais são pessoas que podem ser consideradas superiores da vítima: figuras de autoridade, os quais a vítima respeita.

Experiência repetida: o double bind é um tema recorrente na experiência da vítima, e como tal, não pode ser resolvido como uma única experiência traumática.

Um "comando primário" (primary injunction) é imposto à vítima por outros sob uma das duas formas:

Faça X ou vou puní-lo

Não faça X, ou vou puní-lo

(ou ambos - 1 e 2) A punição é assumida como sendo ou a retirada do amor, a expressão de ódio e raiva ou o abandono, resultando da expressão de falta de ajuda da figura de autoridade.

Um "comando secundário" (secondary injunction) é imposto à vítimia, que entra em conflito com o primeiro em um nível mais alto e mais abstrato. Por exemplo: "Você não deve fazer X, mas somente faça se você realmente quiser". Não é necessário que este comando seja expresso verbalmente.

Se necessário, um "comando terciário" (tertiary injunction) é imposto à vítima, para prevenir que ela escape do dilema.

Por fim, Bateson relata que a completa lista de requerimentos pode não ser necessária quando a vítima já vê seu mundo em padrões de double bind. As características de tal relacionamento são:



Quando a vítima está envolvida em um intenso relacionamento, isto é, um relacionamento o qual ela sente que é de importância vital que ela discrimine de forma acurada que tipo de mensagem está a ser comunicada para que responda apropriadamente

E a vítima se vê numa situação na qual a outra pessoa no relacionamento está a expressar duas ordens de mensagens, uma das quais nega a outra;

E a vítima é incapaz de comentar as mensagens que estão sendo expressas para corrigir seu entendimento de qual mensagem responder; isto é, ela não pode fazer uma afirmação metacomunicativo.

Para que um double bind seja efetivo, a vítima não deve ser capaz de confrontá-lo ou resolver o conflito entre a demanda exigida pelo comando primário e o comando secundário. Desta forma, o double bind se diferencia de uma simples contradição para um conflito interno mais inexpressível, no qual a vítima realmente quer cumprir a demanda do comando primário, mas falha todas as vezes por uma inabilidade de avaliar a imcompatibilidade da situação com as demandas do comando secundário. Assim, a vítima pode expressar sentimentos de extrema ansiedade nesta situação.



Conflitos em comunicação são comuns e constantemente nós perguntamos "O que você quis dizer?" ou buscamos clarificação de outra forma. Isto é chamado de metacomunicação ou comunicação a cerca da comunicação.



Exemplos clássicos:



Uma mãe que diz a seu filho que o ama, enquanto vira seu corpo ou rosto para o outro lado, com nojo. As palavras são socialmente aceitáveis, mas a linguagem corporal está em conflito. Crianças pequenas têm dificuldades em articular contradições verbalmente e não podem ignorá-las ou abandonar o relacionamento com a mãe.

Outro exemplo é o comando "seja espontâneo". O próprio comando contradiz espontaneidade, mas ele só se torna um double bind quando um não pode o ignorar ou comentar a contradição.



Bateson também descreve double binds positivos: no Zen Budismo, no caminho para o crescimento espiritual e o uso terapêutico de double binds por psiquiatras, quando confrontam seus pacientes com contradições presentes em suas vidas, para ajudá-los a sair desta situação.



Esquizofrenia



No caso específico da esquizofrenia, muitos pensam que Bateson propôs que double binds podem causar esquizofrenia. Uma leitura apropriada de seus textos, elucida que:



seus achados indicam que emaranhados na comunicação geralmente diagnosticados como esquizofrenia não resultam necessariamente de uma disfunção cerebral orgânica. Eles encontraram que double binds destrutivos são padrões de comunicação frequentes entre familiares de pacientes e propuseram que padrões perpétuos de double binds poderiam levar a padrões confusos de pensamento e comunicação.

Uma disfunção na programação cerebral, isto é, o aprendizado de um padrão disfuncional de pensar e a criação uma situação na qual a vítima não pode comentar ou realizar um comentário de metacomunicação sobre seu dilema poderia (em teoria) escalar a ansiedade e potencialmente causar uma crise.

Uma solução para o double bind consiste em colocar o dilema em um contexto ainda maior, através do aprendizado. Entretanto, no caso da esquizofrenia, o double bind é presente continuadamente e dentro do contexto familiar. Quando a criança está madura o suficiente para identificá-lo, este já foi internalizado e a criança fica impossibilitada de confrontá-lo.A solução seria um escape, em um mundo ou sistema delirante.

Exemplos de frases double bind:



A mãe diz a seu filho: "você deve me amar" - amor deve ser espontâneo.



Frase Zen: "Seja genuíno" e "Quem é você?" - quanto mais o estudante tenta apresentar seu verdadeiro self, mais falso soa.



"Você deve ser livre" - liberdade implica espontaneidade.



A mãe diz ao filho - "mostre aos seus primos como você brinca" - brincadeira deve ser espontâneo.



Mãe diz ao filho: "deixe sua irmã em paz!" quando o filho sabe que a irmã vai antagonizá-lo para que ele seja punido.



Referências:
Visser, M. (2003). Gregory Bateson on deutero-learning and double bind: A brief conceptual history Journal of the History of the Behavioral Sciences, 39 (3), 269-278 DOI: 10.1002/jhbs.10112
Arden M (1984). Infinite sets and double binds. The International journal of psycho-analysis, 65 ( Pt 4), 443-52 PMID: 6544755
Bateson, Gregory. "Toward a Theory of Schizophrenia," in Part III, Steps to an Ecology of Mind: Collected Essays in Anthropology, Psychiatry, Evolution, and Epistemology. University of Chicago Press, 1999, originally published, San Francisco: Chandler Pub. Co., 1972."

Vanessa Marsden, "Teorias da Comunicação - Double bind ", Disponível em: http://psiquiatriaetoxicodependencia.blogspot.com/2009/12/teorias-da-comunicacao-double-bind.html
(23 de Novembro de 2010)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Password de acesso à BB

O código de activação de pré-inscrições da UC

Mestrado em Sociologia - Organizações e Trabalho (Pós-Laboral) MS07MS0705002660 Organizações: Questões da Actualidade

password: organizaco

textos das aulas dadas

Aulas dadas

14 de Outubro - Apresentação dos objectivos e das formas de avaliação.



21 de Outubro - Debate colectivo: "Como definir uma organização?". A visão da teoria da co-orientação. A Análise de Bruno Latour.

James R. Taylor, “Da tecnologia na organização à organização na tecnologia” in http://revcom.portcom.intercom.org.br/index.php/cs_um/article/viewDownloadInterstitial/4793/4506

https://dl-web.dropbox.com/get/aula1TaylorOrgQA21out10.pdf?w=9fb3708e

28 de Outubro - A questão das metáforas. As metáforas da cultura e do fluxo. A organização como espaço de prisão psíquica.

https://dl-web.dropbox.com/get/Aula2_OrgQA_Resumo_Morgan_Imagens21out10.pdf?w=55eece4e

https://dl-web.dropbox.com/get/aulaOrgQAMorganCultura28out10.pdf?w=3d379cb7

https://dl-web.dropbox.com/get/aulaOrgQAFluxoMorgan28ou10.pdf?w=17bdd9c7

4 de Novembro - A arte da análise organizacional. Exemplo prático.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Aulas - sumários

Aulas dadas


14 de Outubro - Apresentação dos objectivos e das formas de avaliação.

21 de Outubro - Debate colectivo: "Como definir uma organização?". A visão da teoria da co-orientação. A Análise de Bruno Latour.

28 de Outubro - A questão das metáforas. As metáforas da cultura e do fluxo. A organização como espaço de prisão psíquica.

4 de Novembro - A arte da análise organizacional. Exemplo prático.

Aulas previstas


Aulas para apresentação dos portefólios


11 de Novembro – As relações de Poder. A questão da assertividade.

Rui Folha e Gustavo Marques

18 de Novembro – As situações de conflito intra-organizacional. O “Acosso Laboral”: bullying, stalking e mobbing.Assédio Sexual e Moral.

Diana Fernandes, Andreia Castro e Ana Paula Santos

25 de Novembro – Gestão de conflitos e processos de negociação
Helena Ferreira e Marisa Ramoa

2 de Dezembro - A questão da comunicação a partir de E. Goffman e Gregory Bateson.

Pedro Cunha, Susana Magalhães e Cátia Pratas

9 de Dezembro - Novas formas de pensar a organização e a comunicação: a teoria da co-orientação. A teoria do "organizing de Karl Weick.

Marta Lopes e Elisabete Cunha


16 de Dezembro – teste