Inspirado numa sugestão surgida num debate das aulas de Mestrado de Sociologia da Universidade do Minho (aluna Marina), vamos ler o que nos diz Marcel Mauss no seu ensaio sobre a dádiva. Nesse texto, Marcel Mauss inspira-se nas "sociedades não ocidentais" - uma forma civilizacional que ainda emerge na sociedade actual nos fragmentos não captados pela racionalização referida por Max Weber.
A atitude de hospedagem, de receber o outro, tem algo de "dádiva".
"Ao receber alguém estou me fazendo anfitrião, mas também crio, teórica e conceptualmente, a possibilidade de vir a ser hóspede deste que hoje é meu hóspede. A mesma troca que me faz anfitrião, faz-me também um hóspede potencial. Isto ocorre porque “dar e receber” implica não só uma troca material mas também uma troca espiritual, uma comunicação entre almas. É nesse sentido que a Antropologia de Mauss é uma sociologia do símbolo, dacomunicação; é ainda nesse sentido ontológico que toda troca pressupõe, em maior ou menor grau, certa alienabilidade. Ao dar, dou sempre algo de mim mesmo. Ao aceitar, o recebedor aceita algo do doador. Ele deixa, ainda que momentaneamente, de ser um outro; a dádiva aproxima-os, torna-os semelhantes. A etnografia da troca dá ainda um novo sentido às etiquetas sociais. Por mais que estas variem, elas sempre reiteram que, para dar algo adequadamente, devo colocar-me um pouco no lugar do outro (por exemplo, de meu hóspede), entender, em maior ou menor grau, como este, recebendo algo de mim, recebe a mim mesmo (como seu anfitrião)."
(Marcos Lanna, "Nota sobre Marcel Mauss e o ensaio sobre a dádiva". Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n14/a10n14.pdf [25 de Novembro de 2010])
A atitude agónica em relação ao outro tem contudo um aspecto complexo. Nem tudo é dádiva desinteressada.
"Mauss, escrevendo com Hubert o Ensaio sobre a natureza e função do sacrifício, já mostrara, em 1898, que “esta abnegação e essa submissão não deixam de ter um lado egoísta”. Para Mauss, a dádiva é um ato simultaneamente espontâneo e obrigatório. O estudo da dádiva permitiria à sociologia a superação relativa de dualidades profundas do pensamento ocidental, entre espontaneidade e obrigatoriedade, entre interesse e altruísmo, egoísmo e solidariedade, entre outra (3). Este ponto é importante porque a conclusão do Ensaio irá criticar a generalização da noção de interesse individual implícita na sociedade burguesa e no pensamento liberal, que irão opor radicalmente aquilo que a dádiva une" (Marcos Lanna, "Nota sobre Marcel Mauss e o ensaio sobre a dádiva".
Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n14/a10n14.pdf [25 de Novembro de 2010])
Será que esta dádiva ainda predomina nas relações marcadas pela economia das trocas monetárias e mediadas pela mercadoria? Ou será que teremos de defender alternativas éticas, com uma dimensão necessariamente política, que apontam para uma misturade elementos pré-modernos com pós-modernos. Uma nova forma de socialidade tribal? A resposta do Nobel da Economia de 1998, o indiano Amartya Kumar Sen, aponta nesse sentido.
"Um dos representantes do pensamento liberal no Brasil, Delfim Netto (1999), notou recentemente que tal preocupação em propor alternativas à ética do mercado valeu o Prêmio Nobel de Economia de 1998 ao indiano Amartya Kumar Sen (4). Talvez até porque conhece “por dentro” uma “civilização da dádiva”, como a indiana, pôde Sen reconhecer que o desejo egoísta do lucro não só é incapaz de fundar qualquer sociedade, mas tende, justo ao contrário, a inviabilizá-las".(Marcos Lanna, "Nota sobre Marcel Mauss e o ensaio sobre a dádiva".
Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n14/a10n14.pdf [25 de Novembro de 2010])
O acto da dádiva (o agon de que fala Michel Foucault) deve ser contextualizado. Na verdade, a sociedade de troca monetária produz algo que não é natural, propicia até certo ponto o terreno fértil para o abuso, a manipulação, a comunicação tóxica, ambivalente. O bullying, mobbing, stalking, etc. Em certa medida, o neo-liberalismo não é um excesso, um defeito mas a culminação de um longo caminho (um descaminho) civilizacional.
Estamos perante um naufrágio de que não somos meros espectadores como pretende "a posicão apathos do sábio que o torna espectador - homem da "Theoria" - e, em consequência, em fonte de ordem frente ao "mar" das paixões que arrastam o homem no movimento de conjunto de sua história natural, como afirmava Walter Benjamin e que enquanto natural é sempre a narração da morte do humano, e talvez a instituição da narração como anteparo contra a morte" (José Bragança de Miranda, "Apresentação de Hans Blumenberg", in Hans Blumenberg, Naufrágio com espectador, Lisboa, Vega, 1990, p. 13)
Para reflectir...
Marcos Lanna, "Nota sobre Marcel Mauss e o ensaio sobre a dádiva".
Disponível em:
http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n14/a10n14.pdf [25 de Novembro de 2010]
